O 'costureiro do sagrado' que vestiu três papas
Longe da agitação e da pompa do Vaticano, abrigado na cidade montanhosa de Santarcangelo di Romagna, um alfaiate vestido de preto se inclina sobre um desenho ainda inacabado. Com alguns poucos traços de lápis, o estilista Filippo Sorcinelli dá vida a uma vestimenta litúrgica fluida, uma criação à altura de um homem cujos paramentos eclesiásticos consolidaram sua reputação internacional.
No sábado (22), o papa Leão XIV usou, durante uma missa na cidade portuária vizinha de Rimini, uma casula verde e branca criada por este alfaiate de 51 anos.
Após comandar por 25 anos o Ateliê LAVS, dedicado às vestes religiosas, Sorcinelli tem plena consciência do peso de suas responsabilidades: ele criou ornamentos litúrgicos para os três últimos papas, Bento XVI, Francisco e agora Leão XIV.
"Vestir um papa é como vestir um padre. Antes de tudo, o respeito é o mesmo. Os parâmetros são os mesmos: ter no centro a preocupação com o respeito pelo papel que o padre e o papa ocupam e, portanto, por sua dignidade e como se apresentam diante do mundo", afirmou Sorcinelli à AFP.
As normas litúrgicas que devem ser respeitadas "não são restrições, mas diretrizes, regras, pontos fixos", acrescentou. Ele considera a arte sacra "uma mensagem de revelação absolutamente importante".
- Incenso e tecidos -
Chamado de "costureiro do sagrado" pela revista Vogue, Sorcinelli viu seu negócio se expandir ao longo dos anos, passando a incluir perfumes e produtos para o corpo atualmente.
Mas este fervoroso católico continua movido pela fé, despertada pela primeira vez na pequena igreja de sua cidade natal, Mondolfo, no leste da Itália. Ele ainda lembra do cheiro de incenso e dos antigos tecidos zelosamente guardados na sacristia.
"Eu jamais poderia fazer este trabalho se não acreditasse, se não vivesse, de algum modo, uma experiência de fé", afirmou o estilista, que também foi organista principal da catedral de Rimini e de outras igrejas próximas.
"Meu caminho começa realmente naquela pequena igreja de Mondolfo, na região de Marche, onde, desde criança, eu acompanhava a minha mãe para ajudar a limpar o edifício", conta.
Sorcinelli, auxiliado por uma equipe de 11 costureiras, mostra a seda verde que constitui a base da vestimenta de Leão para Rimini, desenrolando o tecido suntuoso sobre uma longa mesa.
A cor verde, "profunda e solene", "evoca justamente o período do ano litúrgico dedicado à esperança e à salvaguarda da criação", explicou.
Aplicações de ouro e prata e pedras de ágata verde completam a peça. "Realmente não havia escolha melhor para descrever o ambiente: na praia, ali mesmo, no porto de Rimini, onde, por meio dos ornamentos, também evocamos as vigias dos navios".
- A arte como expressão -
Na juventude, Sorcinelli conheceu o então padre agostiniano Robert Prevost — o nome do papa Leão XIV —, mas desde então não voltaram a conversar, revela.
Nos trabalhos encomendados pelo pontífice, ele apresenta possíveis desenhos e amostras de tecido ao escritório do Vaticano que organiza as missas e outras celebrações com o papa, o Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.
"O processo de criação de um paramento pontifício — neste caso específico a casula e a mitra, ou seja, o que usa sobre o corpo e o que usa na cabeça — pode variar da simplicidade de algumas semanas até três ou quatro meses de trabalho", explicou.
O que o futuro reserva para o estilista, perfumista e organista ainda é uma incógnita, afirmou. "Considero a arte uma fonte inesgotável de expressão. Parar significaria ter completado a própria existência, e eu ainda não acredito que seja o meu caso", disse.
(F.Schuster--BBZ)