Berliner Boersenzeitung - 'Não estamos vivendo uma época de migrações maciças', assegura o sociológo Hein de Haas

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'Não estamos vivendo uma época de migrações maciças', assegura o sociológo Hein de Haas
'Não estamos vivendo uma época de migrações maciças', assegura o sociológo Hein de Haas / foto: Antonio Sempere - AFP/Arquivos

'Não estamos vivendo uma época de migrações maciças', assegura o sociológo Hein de Haas

Ao contrário do que dizem cada vez mais políticos, o mundo atual não está passando por um período de movimentos migratórios em massa, afirma categoricamente o sociólogo e geógrafo holandês Hein de Haas.

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Autor de The Myths of Immigration (Editorial Península, 2024) e professor da Universidade de Amsterdã, ele também é um dos fundadores do International Migration Institute (IMI), com sede em Oxford.

Em uma entrevista à AFP, ele desmascara uma série de lugares-comuns difundidos por muitos políticos nos Estados Unidos e na Europa.

P: Você fala sobre os “mitos” políticos que cercam a imigração, tanto à direita quanto à esquerda. Quais são eles?

R: Provavelmente o mito mais difundido é o de que estamos vivendo em um período de migração em massa, que é essencialmente causado pela pobreza, violência e miséria humana. E que essas migrações chegaram a tal ponto que ameaçam o emprego, os serviços sociais, a segurança e a identidade de nossas sociedades.

Na realidade, a escala desses movimentos é menor do que pensamos. Os migrantes representam cerca de 3,4% da população mundial, e essa porcentagem não mudou muito nas últimas décadas.

Os refugiados são responsáveis por 10% de todos os migrantes internacionais, ou 0,35% da população mundial. E, além de algumas flutuações de curto prazo, essa proporção permanece relativamente estável.

Entretanto, os políticos geralmente extrapolam os aumentos de curto prazo nas chegadas de refugiados e migrantes e insinuam que isso pressagia uma invasão futura.

A principal causa da imigração não é a pobreza ou a violência nos países de origem. Pelo contrário, o fenômeno aumenta à medida que os países pobres se tornam mais ricos, porque a migração custa dinheiro e exige ambição. Na realidade, a principal causa da migração é a falta de mão de obra nos países de destino.

Portanto, a migração não é “sofrida” como muitos políticos acreditam, mas sim “escolhida”.

P: Quem lucra com esses mitos?

R: Os políticos que os propagam e reciclam. A imigração serve como o bode expiatório ideal para o descontentamento social (desigualdades crescentes, insegurança no emprego, falta de moradia acessível, erosão dos serviços públicos...).

Na realidade, esses problemas foram causados principalmente pelas políticas econômicas neoliberais, que, por exemplo, reduziram os impostos para os ricos, cortaram a proteção dos trabalhadores, corroeram os serviços públicos e negligenciaram a habitação social.

A segunda função política do “mito da invasão” é mobilizar o medo e o ódio de determinados grupos de migrantes e minorias.

Ao apresentar a imigração como uma ameaça existencial, os discursos xenófobos exploram nossos medos mais profundos e permitem que certos políticos se apresentem como defensores de seu povo contra o inimigo estrangeiro.

P: Como você descreveria as tendências de migração na Europa desde a virada do século?

R: No curto prazo, há flutuações intimamente ligadas aos ciclos econômicos.

Após a crise financeira de 2008, a migração para a Europa diminuiu por vários anos.

Entretanto, após a crise da covid, a escassez de mão de obra sem precedentes levou a um aumento da migração legal e ilegal para a América do Norte e a Europa Ocidental.

Os fluxos de refugiados têm sido altamente irregulares, com picos temporários quando há guerras próximas à Europa Ocidental, como foi o caso da Síria a partir de 2015 e da Ucrânia a partir de 2022.

No entanto, vistos em longo prazo, esses movimentos de refugiados são menos massivos do que se acredita.

Na Europa, o que claramente aumentou desde 2000 foi a imigração relacionada à mão de obra. O envelhecimento da população, combinado com um aumento nos níveis educacionais, levou a um aumento no número de empregos considerados precários, que os trabalhadores da Europa Ocidental não estão mais dispostos ou não são capazes de fazer, em setores como agricultura, construção, catering, entrega em domicílio ou limpeza.

(K.Lüdke--BBZ)