Berliner Boersenzeitung - Casa Argentina, residência universitária que gera preocupação na França

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Casa Argentina, residência universitária que gera preocupação na França
Casa Argentina, residência universitária que gera preocupação na França / foto: Kenzo TRIBOUILLARD - AFP

Casa Argentina, residência universitária que gera preocupação na França

Denúncias de expulsões, reuniões privadas da extrema direita... A preocupação com a Casa Argentina, em um prestigiado campus de residências universitárias de Paris, aumenta e pode entrar na pauta da visita do presidente argentino, Javier Milei, à França.

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Com quase um século de história, a Casa Argentina na Cité Internationale Universitaire de Paris, que já abrigou intelectuais como o escritor Julio Cortázar, está mergulhada em polêmicas desde que o governo Milei nomeou, em 2024, o advogado franco-argentino Santiago Muzio como diretor.

"É uma miniditadura", onde se vive com "medo constante" e "sem liberdade de expressão", afirmou à AFP uma residente no ano letivo de 2025/2026. "Estamos todos indignados, é horrível o que está acontecendo nessa casa", acrescentou o diretor de outra das 47 residências da "Cité U".

Assim como muitas das fontes ouvidas pela AFP, ambos pediram anonimato por medo da reação de Muzio.

Católico fervoroso, Muzio dirigia desde 2020 a filial em Madri do Instituto de Ciências Sociais, Econômicas e Políticas (ISSEP), instituição privada fundada pela eurodeputada francesa de extrema direita Marion Maréchal, sobrinha de Marine Le Pen.

Diante da crescente preocupação, a Prefeitura de Paris pediu em 30 de julho ao ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, uma "investigação" e que tratasse da situação com o governo argentino.

"Mantemos conversas em andamento com as autoridades argentinas", respondeu Barrot na terça-feira.

Blandine Sorbe, delegada-geral da fundação que administra a Cité U, afirmou à AFP que trabalha para que a questão "seja abordada" em nível diplomático, no contexto da visita de Milei prevista para o fim de setembro e início de outubro.

Nem a Casa nem Muzio nem o Ministério do Capital Humano argentino responderam às perguntas da AFP. Os ministérios franceses do Interior e do Ensino Superior também não responderam.

- "Medo" -

Criada em 1925, após a Primeira Guerra Mundial, para "contribuir para a construção de um mundo de paz", a Cité Internationale Universitaire de Paris recebe anualmente cerca de 12 mil estudantes, pesquisadores e artistas de 150 nacionalidades em suas 48 residências.

As regras recomendam que 30% dos moradores de cada residência sejam de outras nacionalidades para estimular o intercâmbio, prática conhecida como "brassage".

Com capacidade para cerca de 80 pessoas, a Casa Argentina foi inaugurada em 1928. Seus moradores pagam atualmente entre 620 e 1.210 euros mensais (de R$ 3.900 a R$ 7.600).

"A Casa era um espaço de convivência, cultura e arte. Hoje é um espaço de medo, controle, vigilância, câmeras", resumiu outro residente do último ano letivo.

Os moradores denunciam restrições ao acesso a áreas comuns, como a sala de convivência e a churrasqueira, e afirmam que o medo os levou a conversar aos "sussurros".

Uma das primeiras decisões de Muzio foi não assinar a Carta de Valores da Cité U, firmada anualmente pelos diretores. O documento defende os direitos humanos e a vida privada e proíbe, entre outras práticas, a discriminação por gênero ou orientação sexual.

"Abriu um precedente", afirmou Laurent Schneider, presidente da conferência de diretores das residências. Ao ser questionado por Schneider sobre seus motivos, Muzio respondeu que não poderia assinar "em sã consciência" um documento que reconhece a igualdade de gênero e de orientação sexual.

Uma fonte com conhecimento sobre a residência afirma que Muzio também retirou cartazes em defesa dos direitos LGBTQIA+.

- "Perseguição política" -

O "ponto de ruptura", segundo uma residente, ocorreu em fevereiro, quando foi removida uma placa "em homenagem aos 30.000 desaparecidos e vítimas do Terrorismo de Estado (1974-1983)" na Argentina, sob a justificativa de obras.

Os moradores organizaram então uma homenagem aos desaparecidos na Casa da Alemanha, e a fundação responsável pela Cité U instalou uma placa semelhante no campus.

Meses depois, 13 moradores que participaram da homenagem ou questionaram a retirada da placa foram impedidos de permanecer na Casa durante as férias universitárias, como era habitual, afirmou Salvador Calanni, um dos afetados.

Calanni, então vice-presidente do comitê de moradores, considerou a medida uma "perseguição política". Cerca de dez dos afetados foram acolhidos em julho e agosto por outras residências.

Apesar de ser beneficiário da bolsa de pesquisa Marie Skłodowska-Curie, a mais prestigiosa da União Europeia, Calanni voltou a ficar sem vaga para o ano letivo de 2026-2027 após um controverso processo de seleção.

A Casa abriu e encerrou o processo em agosto, embora ele tradicionalmente ocorra em maio e junho, antes do início das aulas, em setembro. Nem todas as vagas disponíveis foram preenchidas.

Dos 42 candidatos que ficaram de fora, seis contestaram a decisão junto ao Ministério do Capital Humano argentino, alegando que foram excluídos "por uma decisão discricionária", e não por seus méritos, segundo um documento consultado pela AFP.

Muzio também demitiu uma das quatro pessoas que trabalhavam permanentemente na Casa, e outras duas deixaram seus cargos.

- "Internacional reacionária" -

A situação passou a afetar toda a Cité U. "A confiança foi rompida", afirmou Schneider.

O diretor de outra residência disse temer enviar um de seus moradores à Casa Argentina por meio do "brassage" e que ele se depare com uma reunião da extrema direita.

Em novembro, por exemplo, dois grupos de reflexão ligados à extrema direita na Polônia e na Hungria apresentaram no local o plano "O Grande Reset", que propõe desmantelar a União Europeia ou reduzir seu alcance atual, segundo o veículo independente de esquerda "Basta!".

Em maio, a Casa também sediou o debate "Protejamos a dignidade humana no fim da vida: basta de eutanásia na Europa".

A senadora franco-argentina Sophie Briante Guillemont questionou o governo em março sobre possíveis medidas para impedir que as instalações da Cité U sejam utilizadas para fins alheios à sua missão universitária.

"Milei faz parte do que se chama de internacional reacionária. É legítimo querer saber o que acontece dentro dessa casa a partir do momento em que, claramente, existem questões que podem afetar a política nacional francesa e até europeia", afirmou a parlamentar à AFP.

A França realizará sua eleição presidencial em abril e maio de 2027, com a candidata de extrema direita Marine Le Pen liderando as pesquisas e em meio a temores de interferência estrangeira.

- Uma resposta difícil -

Muzio defende que se trata de liberdade de expressão e afirma que essas reuniões são privadas e que os espaços são alugados para arrecadar recursos para a Casa, explicou Sorbe.

A margem de ação da Cité U parece limitada. A fundação pretende reforçar seu "marco ético" para estabelecer limites sobre o que é aceitável no campus.

Sobre cerca de dez casos de discriminação denunciados até agora — a maioria por opinião política e um por orientação sexual —, Sorbe afirmou que não foi possível reunir "elementos suficientes" para comprová-los segundo a legislação francesa.

O principal obstáculo para uma eventual intervenção está na estrutura administrativa da Casa: ela depende diretamente do Ministério do Capital Humano argentino e, ao contrário de praticamente todas as outras residências, não conta com um conselho de administração com representantes da Cité Universitaire.

Desde a década de 2010, a Cité U tenta regularizar essa situação, mas "isso não depende apenas de nós, é realmente uma questão de discussão bilateral e diplomática", ressaltou Sorbe.

A situação na Casa está entre os motivos que levaram mais de 1.600 pessoas a pedir ao Conselho de Paris que declare Milei "persona non grata", mas a Prefeitura esclareceu à AFP que apenas o Estado francês tem competência para adotar essa medida.

(T.Renner--BBZ)