Berliner Boersenzeitung - O novo mundo promovido por Trump, visto de diferentes continentes

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O novo mundo promovido por Trump, visto de diferentes continentes
O novo mundo promovido por Trump, visto de diferentes continentes / foto: Fabrice Coffrini - AFP/Arquivos

O novo mundo promovido por Trump, visto de diferentes continentes

Da Venezuela à Groenlândia, passando pelo "Conselho da Paz", Donald Trump está moldando uma nova ordem mundial, uma era de impérios e restrições. A AFP conversou com diversas autoridades que assistem à velha ordem ruir diante de seus olhos.

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Em entrevistas e conversas privadas, ministros, assessores, legisladores e militares de Brasil, Alemanha, Filipinas, Taiwan e Colômbia — entre outros países — explicam como essa instabilidade ameaça suas nações. Alguns alertam que o processo de mudança será complexo.

"Estamos passando por uma transição muito difícil rumo a uma nova ordem que terá que surgir mais cedo ou mais tarde. Mas esses períodos de transição às vezes trazem consequências terríveis", prevê Celso Amorim, assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Olhando para o mundo de ontem, com suas regras e costumes, "somos todos obrigados a admitir que o rei está nu", comenta um diplomata filipino sob condição de anonimato, aludindo à famosa história em que ninguém ousa dizer a verdade até que alguém revele que o rei está nu.

"Costumávamos pensar que existiam leis e normas internacionais", observa Weng Hsiao-ling, deputada do Kuomintang, partido de oposição de Taiwan.

- A tirania da geografia -

Embora haja consenso sobre a interpretação da situação, as conclusões divergem de continente para continente.

Como se posicionará o Brasil, potência emergente e membro do Brics, mas situado no perímetro da doutrina Monroe 2.0 de Washington?

Amorim defende a continuidade.

"Construir sobre o que já foi feito: o acordo comercial UE-Mercosul, manter boas relações com China, Índia, o Brics, mas também com os Estados Unidos". E acrescenta: "Queremos conservar boas relações com Washington, mas baseadas no respeito mútuo".

Essa busca por equilíbrio e distanciamento da hegemonia americana pode ser difícil para muitos países do continente, como o México, país vizinho e frequentemente alvo de pressão do temperamental presidente americano.

Os Estados Unidos "acreditam que o alinhamento do México com o império americano é automático. Não acho que seja tão simples", afirma Ricardo Monreal, líder do partido governista Morena na Câmara dos Deputados.

"A margem que temos é muito limitada porque nossa dependência é forte. Nossa proximidade é inevitável. Somos vizinhos, como dizia Alan Riding, vizinhos distantes", destaca.

"Mas continuo afirmando que o México, com 110, 120 milhões de habitantes, é um país que pode definir o bloco econômico, e que o tratamento que os Estados Unidos dão ao México não é o de um parceiro. Os Estados Unidos querem que seja um subordinado. E não acho que conseguirão isso", acrescenta.

- Esperança de proteção -

China e Rússia, por sua vez, podem se sentir encorajadas pelas ações do governo dos Estados Unidos. Os países potencialmente ameaçados estão confiantes de que ainda estão protegidos.

Em Taiwan, cuja sobrevivência política depende fortemente do apoio de Washington, o deputado Wang Ting-yu, do partido governista DPP, acredita que a captura de Nicolás Maduro na Venezuela é um aviso aos regimes autoritários, que pensarão "duas vezes antes de lançar uma invasão ou uma guerra".

"Devemos ser prudentes, porque a China aprenderá lições com esse tipo de operação" e poderia tentar inspirar-se nela, alerta ele.

Nas Filipinas, a dependência dos Estados Unidos da segurança dos fluxos comerciais globais é vista como um fator crucial.

"O futuro econômico dos Estados Unidos depende fortemente da região do Indo-Pacífico, especialmente da Asean e das Filipinas. Se a Groenlândia é crucial para sua segurança nacional, o Indo-Pacífico é vital para sua segurança econômica", observa o diplomata filipino citado anteriormente.

"Não estou dizendo que isso (as ações de Trump) não preocupa ninguém, mas existe uma certa sensação de segurança, e esperamos não estar enganados", diz ele.

- Mundo "darwiniano" -

Na Europa, que durante décadas viveu protegida dos soviéticos graças ao poder dos Estados Unidos e que, segundo inúmeras teorias de relações internacionais, continua indispensável a Washington por sua posição como porta de entrada para a Eurásia, "estamos completamente paralisados", lamenta um oficial militar de alta patente sob condição de anonimato.

"O mundo tornou-se, mais uma vez, profundamente darwiniano. Não é a inteligência que prevalece, mas a velocidade de adaptação" a essa nova realidade.

"Precisamos manter os Estados Unidos ligados à Europa pelo maior tempo possível", afirma Armin Laschet, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Parlamento alemão.

Mesmo que isso signifique chegar ao extremo de chamar Donald Trump de "papai", como fez o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, na cúpula realizada em junho passado em Haia.

Nesse cenário de reconfiguração, o que fazer com os instrumentos da ordem multilateral, como a ONU, que está paralisada há anos?

O vice-ministro das Relações Exteriores da Colômbia, Mauricio Jaramillo, afirmou que, após a captura de Maduro, ficou "surpreso ao ver diplomatas do Conselho de Segurança da ONU, da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e da Organização dos Estados Americanos (OEA) não reagirem, não dizerem: 'Isso é extremamente grave'".

"As Nações Unidas precisam ser fortalecidas; precisam representar verdadeiramente um espaço para a coordenação multilateral e também garantir que, em situações como esta, a lei da força não prevaleça, com o maior exército ou a maior economia", disse a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, em sua coletiva de imprensa em 7 de janeiro.

(T.Renner--BBZ)