Berliner Boersenzeitung - Indígenas colombianos vs créditos de carbono: o lado obscuro da geopolítica ambiental

EUR -
AED 4.224515
AFN 75.327285
ALL 93.811063
AMD 421.738751
AOA 1055.985156
ARS 1716.612094
AUD 1.641531
AWG 2.071998
AZN 1.966892
BAM 1.961232
BBD 2.317098
BDT 142.06349
BHD 0.43382
BIF 3416.262432
BMD 1.150311
BND 1.482105
BOB 13.546935
BRL 5.848296
BSD 1.150477
BTN 110.019604
BWP 15.720749
BYN 3.366525
BYR 22546.098636
BZD 2.31391
CAD 1.612305
CDF 2628.460694
CHF 0.928692
CLF 0.027124
CLP 1067.557539
CNY 7.783347
CNH 7.76433
COP 3644.760894
CRC 523.044191
CUC 1.150311
CUP 30.483246
CVE 110.571263
CZK 24.206917
DJF 204.872804
DKK 7.475199
DOP 66.955455
DZD 152.754369
EGP 58.745821
ERN 17.254667
ETB 185.696195
FJD 2.551739
FKP 0.865758
GBP 0.856585
GEL 3.013886
GGP 0.865758
GHS 13.443646
GIP 0.865758
GMD 85.122897
GNF 10098.972336
GTQ 8.778314
GYD 240.702981
HKD 9.022379
HNL 30.824378
HRK 7.530855
HTG 150.426655
HUF 362.725891
IDR 20752.936092
ILS 3.525712
IMP 0.865758
INR 109.851036
IQD 1507.074325
IRR 1581965.415767
ISK 142.626695
JEP 0.865758
JMD 181.95398
JOD 0.815564
JPY 183.354423
KES 148.855063
KGS 100.595149
KHR 4625.973975
KMF 494.634374
KRW 1644.145423
KWD 0.356753
KYD 0.958768
KZT 545.785451
LAK 26081.033325
LBP 103027.00101
LKR 386.44037
LRD 208.239501
LSL 19.07714
LTL 3.39657
LVL 0.695812
LYD 7.363395
MAD 10.7948
MDL 20.260382
MGA 4918.77378
MKD 61.690873
MMK 2415.473152
MNT 4136.776298
MOP 9.295669
MRU 45.995399
MUR 54.306305
MVR 17.783559
MWK 1994.977758
MXN 19.971978
MYR 4.703391
MZN 73.516372
NAD 19.07714
NGN 1567.793371
NIO 42.338558
NOK 11.000679
NPR 176.025027
NZD 1.962161
OMR 0.442278
PAB 1.150522
PEN 3.898498
PGK 5.07606
PHP 70.610127
PKR 319.511991
PLN 4.307346
PYG 6876.045409
QAR 4.193916
RON 5.2477
RSD 117.406472
RUB 91.706926
RWF 1693.512809
SAR 4.292577
SBD 9.284795
SCR 15.447869
SDG 690.763617
SEK 11.005485
SGD 1.476568
SLE 27.751206
SOS 657.515484
SRD 43.418504
STD 23809.118438
STN 24.567835
SVC 10.066883
SZL 19.081853
THB 38.440519
TJS 10.624435
TMT 4.037592
TND 3.401622
TRY 54.541772
TTD 7.808867
TWD 37.351773
TZS 3045.434999
UAH 51.326966
UGX 4308.934975
USD 1.150311
UYU 46.278182
UZS 13811.25469
VES 855.0218
VND 30231.902618
VUV 137.498164
WST 3.166259
XAF 657.801867
XAG 0.019766
XAU 0.000281
XCD 3.108773
XCG 2.073506
XDR 0.819019
XOF 657.778929
XPF 119.331742
YER 274.14791
ZAR 19.012768
ZMK 10354.199836
ZMW 21.485164
ZWL 370.399723
Indígenas colombianos vs créditos de carbono: o lado obscuro da geopolítica ambiental
Indígenas colombianos vs créditos de carbono: o lado obscuro da geopolítica ambiental / foto: Juan Pablo Pino - AFP

Indígenas colombianos vs créditos de carbono: o lado obscuro da geopolítica ambiental

Enquanto mastiga folhas de coca em um ritual tradicional, o líder indígena colombiano Fabio Valencia consulta a natureza e seus ancestrais sobre um projeto polêmico apresentado à sua comunidade como uma iniciativa que vai salvar o planeta.

Tamanho do texto:

Em um recanto remoto da Amazônia colombiana, muito longe de Dubai, onde líderes mundiais reunidos na COP28 estabelecem as bases de uma reforma do sistema global de créditos de carbono, Valencia se queixa do projeto. As vendas destes bônus "verdes" a empresas contaminantes que pretendem compensar o uso de combustíveis fósseis "são piores" para as tradições indígenas do que o garimpo e a exploração de petróleo, afirma ele.

"O garimpo é o impacto ambiental, a contaminação, mas isto (os bônus) contamina espiritualmente, fisicamente, destrói tudo", diz.

Representante legal das seis etnias da selva do Pirá Paraná, no departamento (estado) de Vaupés (sudeste), Valencia lidera uma cruzada contra uma sociedade que iniciou, em 2022, um projeto de créditos de carbono, segundo ele pelas costas destas comunidades.

O líder do povo Makuna, de 43 anos, tem o rosto pintado com linhas vermelhas, um símbolo de proteção neste território amazônico, chave por suas milhões de árvores que absorvem gases de efeito estufa.

Segundo Valencia, a empresa colombiana Masbosques, que promove iniciativas sustentáveis, assinou um acordo com um ex-líder sem poder legal e violou outros direitos amparados pela Constituição, como a autonomia territorial das populações nativas, o governo próprio e seus conhecimentos ancestrais reconhecidos como patrimônio da humanidade.

A AFP caminhou, navegou e sobrevoou parte dos 7.100 km2 que integram o projeto Baka Rokarire, quase do tamanho de Porto Rico. Um território sem a presença de grupos armados por sua localização remota e acessível apenas mediante voos privados caríssimos ou em viagens em lancha de pelo menos seis dias a partir de Mitú, a cidade mais próxima.

Segundo o contrato, seus 2.246 habitantes devem preservar a área em troca do dinheiro de empresas que adquiriram estes bônus para mitigar seus danos ambientais e reduzir impostos sobre as emissões de dióxido de carbono. Uma tarefa urgente em uma região castigada pelo aquecimento global, com uma das piores secas de que os indígenas têm memória.

- "Bonança" -

Quando os lucros dos bônus de carbono chegaram ao Pirá Paraná, aumentou o consumo de álcool e latas de cerveja contaminaram o rio.

A "bonança", contam, mexeu com os indígenas, que gastaram mal os recursos. Além disso, gerou divisões agora irremediáveis entre líderes e comunidades desacostumadas a administrar grandes quantias de dinheiro.

Consultada pela AFP, a Masbosques respondeu que o contrato é "válido, legal e sem vácuos jurídicos", e afirmou ser vítima de uma "campanha de difamação". Críticas apontam que seu projeto está em um lugar sem ameaças de desmatamento.

A Corte Constitucional analisa as duas versões no primeiro caso do tipo que chega ao tribunal.

Jacobo Marín, um indígena de 40 anos, aliou-se à companhia, mas pouco tempo depois mudou de opinião, pois sentiu que estava traindo seu povo. "Isso nos trouxe muitos conflitos entre parentes (...) por questões de dinheiro", diz.

Em outra ação penal junto ao Ministério Público, os indígenas acusam a Masbosques de falsificação de documentos.

"A empresa entrou aqui invadindo", diz Wilmer García, um governante indígena que usa um colar adornado com a presa de uma onça. "Não reconheceu que aqui há autoridades ambientais e tradicionais", insiste.

-"Carbon-cowboys"-

A COP21 e o Acordo de Paris estabelecem os princípios de uma reforma do mercado de carbono para fomentar a participação dos Estados e não apenas de entes privados.

Os detalhes do mecanismo foram aprofundados na COP26, mas após dois anos de negociações e consultas com diferentes atores, um texto estabelecendo as regras deve ser votado na COP28 e entrar em vigor em janeiro próximo.

A Ministra do Ambiente da Colômbia, Susana Muhamad, explica que os créditos de carbono são negociados entre particulares sem o controle, nem a participação das autoridades.

"Essa falta de regulação" abriu o caminho para "um aproveitamento por parte de algumas empresas sobre algumas comunidades", diz à AFP, mencionando planos para a criação de uma agência reguladora. O governo do progressista Gustavo Petro vê nos bônus de carbono uma fonte de financiamento para deixar para trás a extração de hidrocarbonetos.

Os intermediários que assinam contratos com as comunidades em territórios supostamente inexplorados e depois revendem estes créditos a multinacionais foram apelidados de "carbon-cowboys" (caubóis do carbono).

Roberto Marín, de 58 anos, lembra que o projeto não foi aprovado na maloca, oca onde os indígenas realizam reuniões e cerimônias.

"Deve-se reconhecer que aqui existimos povos, seres humanos com os mesmos direitos", reforça.

- Capitalismo verde -

Segundo o Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas Sinchi (estatal), 66% do território indígena da Amazônia colombiana faz parte de um projeto de créditos de carbono.

A Masbosques, que se apresenta como uma organização "sem fins lucrativos", intermediou a venda de bônus à corporação Latín CheckOut por aproximadamente 3,8 milhões de dólares (R$ 18,7 milhões, na cotação atual), dos quais diz ter entregue 100% aos indígenas.

De acordo com o site www.ecoregistry.com, a companhia aérea americana Delta os obteve logo depois. A empresa se apresenta como comprometida com o meio ambiente, mas é processada em seu país por suspeita de "greenwashing" (maquiagem verde), ou seja, pelo uso de estratégias publicitárias para criar uma imagem ilusória de responsabilidade ambiental.

Governo e especialistas concordam em que este "capitalismo verde" é uma das principais ameaças contra a transição ambiental.

Na Colômbia, sob análise e questionamentos de especialistas, um juiz ordenou a suspensão de outro projeto porque a empresa não consultou as comunidades anteriormente.

Após uma pesquisa global com exemplos do país, a diretora do Berkeley Carbon Trading Project, Bárbara Haya, afirmou que a maioria dos projetos exagerou na quantidade de CO2 absorvida e na realidade não evita o desmatamento.

"Temos visto muitos casos de projetos (...) que põem em risco algumas das comunidades mais vulneráveis do planeta", disse a especialista à AFP no começo do ano.

(T.Burkhard--BBZ)