Berliner Boersenzeitung - Bolha, de ia inflada sem freio

EUR -
AED 4.29936
AFN 72.582645
ALL 95.410717
AMD 434.785711
ANG 2.095399
AOA 1074.692681
ARS 1658.302981
AUD 1.631657
AWG 2.110168
AZN 1.989587
BAM 1.953921
BBD 2.363568
BDT 144.371202
BGN 1.952829
BHD 0.441655
BIF 3487.706503
BMD 1.170689
BND 1.494089
BOB 8.109273
BRL 5.834253
BSD 1.173502
BTN 110.474206
BWP 15.800147
BYN 3.295688
BYR 22945.514183
BZD 2.362609
CAD 1.596177
CDF 2721.853268
CHF 0.921915
CLF 0.026621
CLP 1047.72052
CNY 7.987791
CNH 7.998976
COP 4242.110469
CRC 533.189669
CUC 1.170689
CUP 31.023272
CVE 110.160033
CZK 24.3576
DJF 208.974447
DKK 7.472505
DOP 69.763228
DZD 155.117502
EGP 61.542094
ERN 17.560342
ETB 183.235168
FJD 2.571361
FKP 0.867326
GBP 0.865941
GEL 3.143328
GGP 0.867326
GHS 13.019594
GIP 0.867326
GMD 85.460037
GNF 10299.186338
GTQ 8.97149
GYD 245.516058
HKD 9.17206
HNL 31.187549
HRK 7.53385
HTG 153.644911
HUF 364.560324
IDR 20189.125757
ILS 3.493314
IMP 0.867326
INR 110.619971
IQD 1537.328578
IRR 1539456.691086
ISK 143.409305
JEP 0.867326
JMD 185.255851
JOD 0.830041
JPY 186.337506
KES 151.194722
KGS 102.354206
KHR 4696.524879
KMF 491.689706
KPW 1053.620543
KRW 1724.209067
KWD 0.36035
KYD 0.977964
KZT 537.635414
LAK 25715.716237
LBP 104566.906572
LKR 373.477319
LRD 215.335735
LSL 19.339937
LTL 3.456742
LVL 0.708138
LYD 7.444034
MAD 10.843867
MDL 20.313817
MGA 4877.41501
MKD 61.627339
MMK 2458.357802
MNT 4186.960132
MOP 9.473033
MRU 46.858151
MUR 54.764822
MVR 18.098345
MWK 2034.887114
MXN 20.363205
MYR 4.626567
MZN 74.807242
NAD 19.339689
NGN 1592.360354
NIO 43.188847
NOK 10.899825
NPR 176.758329
NZD 1.985589
OMR 0.450124
PAB 1.173482
PEN 4.091966
PGK 5.096144
PHP 71.520887
PKR 327.091316
PLN 4.250182
PYG 7393.018654
QAR 4.289713
RON 5.091336
RSD 117.390953
RUB 87.655034
RWF 1719.783326
SAR 4.390929
SBD 9.422392
SCR 16.781822
SDG 702.990133
SEK 10.828222
SGD 1.493279
SHP 0.874038
SLE 28.801112
SLL 24548.768964
SOS 670.66954
SRD 43.742826
STD 24230.909019
STN 24.476677
SVC 10.268172
SYP 129.390435
SZL 19.323917
THB 38.035308
TJS 11.022244
TMT 4.103267
TND 3.414047
TOP 2.81874
TRY 52.743036
TTD 7.968407
TWD 36.934115
TZS 3049.790172
UAH 51.755048
UGX 4365.839974
USD 1.170689
UYU 46.675724
UZS 14168.438976
VES 566.537003
VND 30845.912268
VUV 138.363261
WST 3.194234
XAF 655.34095
XAG 0.015896
XAU 0.000252
XCD 3.163847
XCG 2.114976
XDR 0.815034
XOF 655.343746
XPF 119.331742
YER 279.290871
ZAR 19.41489
ZMK 10537.60725
ZMW 22.204196
ZWL 376.961541

Bolha, de ia inflada sem freio




O entusiasmo com a inteligência artificial (IA) atravessa o planeta como um furacão. Em poucos anos, modelos capazes de gerar textos, imagens e códigos catalisaram uma corrida por chips, centros de dados e talentos que já movimenta trilhões de dólares. Grandes consultorias estimam que os gastos globais com IA devem atingir cerca de US$ 1,5 trilhão antes do fim de 2025, um crescimento de quase 90 % em relação ao ano anterior. Esse apetite se reflete nas bolsas: ações associadas à IA responderam por mais de três quartos dos ganhos do principal índice dos Estados Unidos, enquanto empresas como a Nvidia viram seu valor disparar mais de 44 000 % na última década, alcançando a inédita marca de US$ 5 trilhões em valor de mercado. Microsoft, Meta e Alphabet também acumulam valorizações de três dígitos, com capitalizações trilionárias que hoje superam o produto interno bruto de muitos países.

Por trás da euforia, investidores despejam recursos em projetos cada vez mais ambiciosos. Um consórcio liderado por grandes nomes do setor anunciou neste ano um empreendimento para construir dezenas de gigantescos data centers e usinas de energia dedicadas à IA. O projeto, batizado de Stargate, nasceu com aporte inicial de US$ 100 bilhões e pode chegar a meio trilhão de dólares. Ao mesmo tempo, a OpenAI, uma das pioneiras na área, prepara uma oferta pública de ações que poderia avaliá‑la em mais de US$ 1 trilhão, enquanto seus custos anualizados já superam em muito a receita. Analistas estimam que, apenas no primeiro semestre de 2025, a empresa faturou cerca de US$ 4,3 bilhões, mas amargou prejuízos superiores a US$ 13 bilhões. Outra gigante, a Meta, anunciou planos para investir centenas de bilhões de dólares em infraestrutura de IA nos próximos anos. A escala desses investimentos lembra o final dos anos 1990, quando qualquer empresa com um “.com” no nome obtinha financiamentos exorbitantes, e levanta a pergunta inevitável: estaríamos inflando uma nova bolha?

Euforia e receio
Pesquisas com gestores revelam que a hipótese de uma bolha de IA divide o mercado. Uma sondagem mensal feita por um grande banco norte‑americano mostrou que 54 % dos investidores já enxergam sinais de exuberância excessiva nas ações ligadas à inteligência artificial, enquanto 38 % discordam dessa leitura. O alerta também parte de autoridades: o banco central do Reino Unido classificou como “material” o risco de uma correção abrupta das bolsas caso o humor em torno da IA esfriasse, ressaltando que as avaliações recordes e a concentração de valor em poucas empresas lembram a fase final da bolha pontocom. Para o Banco da Inglaterra, 30 % da capitalização do S&P 500 está nas mãos de um punhado de companhias de tecnologia, tornando o índice vulnerável a movimentos de pessimismo.

O receio não se limita ao Velho Continente. O diretor de investimentos de um dos maiores fundos soberanos da Ásia afirmou recentemente que há “uma bolha de propaganda” em torno de startups de IA em estágio inicial: qualquer empresa com a sigla no nome consegue múltiplos gigantescos, independentemente da receita. O fundador de uma gigante do comércio eletrônico, por sua vez, observou em evento de tecnologia que, quando o entusiasmo é tão grande, “todo experimento é financiado” e torna‑se difícil separar boas ideias de projetos fadados ao fracasso. Até mesmo o presidente de uma das maiores desenvolvedoras de modelos admite que os investidores estão “superexcitados” com a IA e que alguém sairá perdendo muito dinheiro, embora não se saiba quem.

Uso real menor que o hype
Enquanto o capital flui, os dados de adoção desenham um cenário menos exuberante. Levantamentos do Bureau do Censo dos Estados Unidos, que acompanha mais de um milhão de empresas, indicam que a proporção de grandes corporações com mais de 250 funcionários que utilizam ferramentas de inteligência artificial caiu de quase 14 % em meados de junho para pouco menos de 12 % em agosto. Para investidores que acreditavam que a IA empresarial revolucionaria todos os setores, a queda é um sinal de alerta. Pesquisadores apontam que 95 % das empresas que adotaram softwares de IA não viram qualquer receita adicional. Os custos operacionais dispararam — treinar um modelo de ponta pode custar centenas de milhões de dólares — e aplicações práticas capazes de justificar esses gastos ainda são raras.

Especialistas em mercado de trabalho chamam atenção para as limitações tecnológicas que pesam no retorno das ferramentas generativas. Os modelos continuam propensos a “alucinar” respostas incorretas, têm dificuldade em lidar com tarefas críticas e não são capazes de aprender de maneira contínua como humanos, o que reduz os ganhos produtivos. Além disso, agentes autônomos, um dos campos mais promissores, completam apenas cerca de um terço das tarefas complexas com sucesso. Esses entraves explicam por que, apesar das manchetes, muitas empresas resistem a substituir processos consagrados por soluções automatizadas.

Corrida geopolítica e disparidades
A disputa pela supremacia da inteligência artificial extrapola o universo financeiro. Autoridades norte‑americanas tratam a tecnologia como uma corrida estratégica contra a China, baseadas na ideia de que quem alcançar primeiro uma inteligência artificial geral (AGI) obterá vantagem militar e econômica decisiva. O problema, salientam pesquisadores, é que ninguém sabe ao certo o que seria essa AGI ou como alcançá‑la. Enquanto os Estados Unidos apostam em modelos cada vez maiores, a estratégia chinesa tem sido diferente: desenvolver sistemas mais eficientes e baratos e aplicá‑los rapidamente em setores produtivos. Caso Pequim consiga oferecer modelos de baixo custo para o resto do mundo, isso poderá frustrar expectativas de retorno nos projetos estadunidenses.

O frenesi em torno da IA também está ligado à infraestrutura energética. A nova onda de modelos exige quantidades colossais de eletricidade, e a construção de data centers tornou‑se prioridade para governos e empresas. Uma estimativa financeira sugere que os Estados Unidos poderiam receber US$ 1 trilhão em investimentos em centros de dados nos próximos cinco anos, com igual montante aplicado em outros países. O aumento do consumo de energia e a necessidade de gerar eletricidade adicional gera debates sobre sustentabilidade e segurança energética — e coloca em xeque projetos que prometem ganhos fáceis sem considerar custos ambientais e logísticos.

Ecos da história e lições
Comparar o momento atual a bolhas passadas oferece pistas. Um estudo publicado em periódico acadêmico analisou duas centenas de anos de inovações radicais, de ferrovias e telégrafo ao rádio, internet e smartphones, mapeando 51 tecnologias que geraram bolhas no mercado de ações. Os autores concluíram que 73 % dessas inovações produziram algum comportamento de bolha e que as maiores explosões ocorreram quando a tecnologia era altamente disruptiva, possuía fortes efeitos de rede e era amplamente visível ao público. Após o estouro, contudo, o valor agregado continuou crescendo: a bolha funcionou como uma “subvenção espontânea”, acelerando a difusão e saturação da inovação. Essa leitura inspira algum otimismo — mesmo que haja correção, a IA tende a permanecer e amadurecer.

Economistas também destacam diferenças importantes em relação à bolha pontocom. Na virada do século, muitas empresas listadas tinham pouca ou nenhuma receita, ao passo que hoje várias gigantes de IA exibem lucros robustos. Analistas lembram que as receitas das empresas do setor têm crescido em ritmo parecido ao de suas ações e que a tecnologia já é utilizada por grande parte das companhias da lista Fortune 500. Além disso, as atuais apostas são em sua maioria financiadas com capital próprio, e não com dívida, o que reduz o risco de crise sistêmica. Ainda assim, as avaliações em patamares históricos e as expectativas de crescimento ilimitado suscitam prudência.

Vozes divergentes
No cenário de incerteza, executivos e investidores manifestam opiniões divergentes. O presidente de um grande banco norte‑americano reconheceu que a inteligência artificial é uma revolução genuína, mas alertou que “parte do dinheiro investido agora provavelmente será desperdiçado”. O analista de um banco europeu defende que estamos diante de um ciclo normal de mercado, em que empresas entregam resultados compatíveis com o preço das ações e possuem capacidade financeira real para sustentar investimentos em pesquisa. Segundo ele, o atual movimento se assemelha mais a um “superciclo de investimentos” do que a uma bolha pura e simples.

Outros especialistas são mais céticos. Um pesquisador de Oxford observa que as empresas ainda não encontraram aplicações duradouras que justifiquem os custos crescentes e que o entusiasmo se baseia na expectativa de uso futuro, não em receitas presentes. Um analista britânico calcula que a especulação em torno da IA seja 17 vezes maior do que a que antecedeu o estouro das pontocom e quatro vezes maior do que a bolha imobiliária de 2008. O economista‑chefe de uma organização internacional, por sua vez, prevê que um colapso “ao estilo pontocom” não derrubará a economia global, mas que alguns acionistas podem sofrer perdas consideráveis.

Para onde vamos?
O consenso entre os especialistas é que a bolha de IA, se é que existe, não pode ser simplesmente estourada por decreto. A combinação de inovação genuína, competição geopolítica e promessa de ganhos extraordinários cria um ambiente em que poucos têm interesse em puxar o freio. Mesmo gestores que acreditam estar numa bolha continuam investidos em empresas de IA porque não querem perder a próxima grande revolução. A história ensina que a exuberância acabará se ajustando à realidade: projetos sem retorno serão abandonados, startups desaparecerão e apenas algumas gigantes sobreviverão, possivelmente mais fortes do que nunca. Para investidores e profissionais, a lição é clara: separar o hype dos fundamentos, avaliar utilidade real e não ignorar riscos. A inteligência artificial transformará negócios e sociedades — mas, como em toda tecnologia radical, os caminhos serão tortuosos, e o estouro da bolha não significará o fim da inovação.