Berliner Boersenzeitung - Guerra, rejeição e ormuz

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Guerra, rejeição e ormuz




A ofensiva que os Estados Unidos, ao lado de Israel, lançaram contra o Irão colocou o presidente Donald Trump no centro de um impasse. Nas duas semanas que se seguiram aos primeiros bombardeamentos, o líder norte‑americano alternou declarações de vitória com relatos de que o conflito mal começou. Num dia afirma que os objectivos “estão praticamente cumpridos”; no dia seguinte promete “ir além” e anuncia que a retirada será “em breve, mas não agora”. Essa oscilação de discursos evidencia a ausência de uma estratégia de saída definida e provoca dúvidas sobre os planos de reconstrução pós‑guerra. Enquanto o primeiro‑ministro israelita traça metas claras de mudança de regime no Irão, Trump mostra‑se perdido entre a busca por um desfecho rápido e a necessidade de mostrar força.

A falta de rumo repercute no seu próprio governo. O Departamento de Defesa assinala em mensagens nas redes sociais que “a luta apenas começou”, enquanto o presidente repete que o Irão já não tem marinha nem comunicação. Ainda assim, em outras ocasiões ele admite que parte da capacidade militar iraniana continua intacta e que a capacidade de mísseis e drones diminuiu apenas parcialmente. Este contraste desperta críticas de aliados e leva mesmo a demissões no seu gabinete de segurança, como a do chefe do contraterrorismo que renunciou por discordar da condução da guerra. Trump também adiou reuniões com a China e procura apoio internacional, incluindo uma conversa telefónica com Vladimir Putin, para tentar uma mediação que lhe permita sair do conflito sem parecer derrotado.

Além do desgaste político, a guerra consome recursos astronómicos; estima‑se que o esforço militar custe cerca de mil milhões de dólares por dia. Investidores e aliados do Golfo Pérsico mostram‑se inquietos com a incerteza, e alguns membros do partido republicano receiam que a falta de um plano claro prejudique as suas próprias campanhas eleitorais. A fragilidade da estratégia americana torna‑se ainda mais evidente perante a capacidade iraniana de prolongar o conflito – porta‑vozes da Guarda Revolucionária afirmam que o país pode resistir a seis meses de combate intenso. Esse jogo de resistência, aliado à ambiguidade de Trump, fez surgir a alcunha “Trump Always Caves Out” (TACO) entre críticos, insinuando que o presidente tende a recuar sob pressão.

Rejeição crescente a Lula
Enquanto a Casa Branca tenta manter apoio doméstico, no Brasil o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um cenário desfavorável. Pesquisas de opinião divulgadas no início de 2026 indicam que 57 % dos brasileiros desaprovam a sua gestão, contra 34 % de aprovação. Trata‑se do maior nível de rejeição desde meados de 2025 e representa uma diferença de 23 pontos percentuais entre aprovação e reprovação. A desaprovação é mais acentuada entre homens, pessoas com idades entre 25 e 44 anos e famílias de rendimentos mais elevados. Nas regiões Centro‑Oeste e Sul, a rejeição supera 65 %, enquanto o Nordeste permanece relativamente mais favorável a Lula, embora dividido.

Os analistas observam que a queda de popularidade não se limita à avaliação do governo. A rejeição pessoal ao presidente tem crescido mais rápido do que a insatisfação com as políticas públicas. Desde 2024, a diferença entre aprovação e reprovação praticamente duplicou, sinal de um desgaste que pode comprometer uma eventual tentativa de reeleição. Muitos brasileiros que apoiaram Lula em 2022 queixam‑se da persistência de problemas económicos, da inflação e da percepção de que a agenda social não tem sido suficiente para reduzir o desemprego. Comentadores apontam que o governo enfrenta um eleitorado mais pragmático, composto por classes médias moderadas que rejeitam um Estado intervencionista.

No debate público, circulam críticas severas que comparam o impacto das políticas governamentais às consequências da pandemia. Figuras do sector empresarial afirmam que mais empresas fecharam durante a actual administração do que no auge da COVID‑19. Nas redes sociais e em debates televisivos, muitos cidadãos manifestam cansaço e afastam‑se do noticiário para preservar a saúde mental; outros recorrem ao humor e à ironia para lidar com a saturação de notícias e discursos longos. Esse clima de fadiga e desencanto reflecte‑se nas sondagens e obriga o governo a reavaliar a estratégia de comunicação e as prioridades económicas.

O mundo refém do Estreito de Ormuz
A terceira peça deste mosaico geopolítico é o Estreito de Ormuz. Situado entre o Irão e Omã, com apenas algumas dezenas de quilómetros de largura, esse corredor marítimo permite a passagem de cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, quase um quinto do consumo mundial. Quando, em 2 de março, a Guarda Revolucionária iraniana declarou o estreito formalmente fechado e ameaçou atacar qualquer navio que tentasse atravessá‑lo, o mercado global de energia entrou em convulsão. O preço do Brent, que rondava os 70 dólares, chegou a 119 dólares na segunda semana de março, marcando a cotação mais alta desde 2022. Poucos dias depois, nos Estados Unidos, o barril ultrapassou os 100 dólares pela primeira vez desde as consequências da guerra da Rússia na Ucrânia.

A interrupção do tráfego levou produtores a desligar poços no Iraque e a reduzir drasticamente a produção para evitar a saturação de tanques. Estima‑se que, se o bloqueio persistir, a produção regional possa cair entre quatro e nove milhões de barris por dia. Ao mesmo tempo, a incerteza elevou ainda mais os custos de seguros e fretes e fez disparar os preços do gás natural liquefeito, especialmente na Europa e na Ásia, onde se concentram 90 % das cargas que transitam por Ormuz. A situação é grave para países como a China, que dependem do estreito para mais de um terço das suas importações de energia. 

O impacto não se limita ao petróleo. Fertilizantes, alumínio e outros produtos primários também enfrentam atrasos; fundições do Médio Oriente declararam força maior e reduziram produção. Algumas companhias europeias estimam que a recuperação possa demorar até doze meses. Historiadores da energia comparam a actual crise aos choques petrolíferos de 1973 e 1979 e alertam que, se o bloqueio se prolongar, poderá desencadear recessões globais. Para o Irão, a pressão económica sobre os Estados Unidos e os seus aliados é uma arma tão eficaz quanto mísseis ou drones.

Interdependências e desafios
A conjunção destes três temas — a guerra sem plano aparente conduzida por Trump, a crescente impopularidade de Lula e a vulnerabilidade do mundo ao bloqueio de Ormuz — evidencia a fragilidade das lideranças e da ordem internacional. A imprevisibilidade de Washington alimenta volatilidade nos mercados e pode precipitar uma crise económica global; a perda de popularidade do presidente brasileiro abre espaço a alternativas políticas num contexto já polarizado; e o estreito recorda que a geografia marítima continua a ser uma alavanca de poder decisiva. 

Os próximos meses exigirão negociações diplomáticas cuidadosas para evitar uma escalada no Golfo Pérsico, políticas económicas que respondam à insatisfação social no Brasil e investimentos em rotas e fontes de energia alternativas. Mais do que nunca, a estabilidade global depende de soluções coordenadas que ultrapassem interesses imediatos.