Berliner Boersenzeitung - Gigantes atrás da Nvidia

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Gigantes atrás da Nvidia




Na última década, a Nvidia tornou-se sinônimo de inteligência artificial (IA). Suas placas gráficas alimentam supercomputadores, centros de dados e a onda de plataformas de IA generativa que nasceu após a pandemia. A valorização da empresa refletiu esse protagonismo: desde o início de 2023, as suas ações chegaram a subir centenas de por cento, o que a colocou entre as empresas mais valiosas do mundo. Em 2026, no entanto, o entusiasmo em torno do setor abriu espaço para uma discussão mais ampla: há empresas que, mesmo sem a visibilidade de uma fabricante de chips, apresentaram retornos muito superiores e expõem tanto as oportunidades quanto os riscos de um mercado cada vez mais concentrado na inovação.

Europa: os fornecedores que brilham sem holofotes
O velho continente não tem um equivalente à Nvidia em termos de escala de capitalização, mas abriga alguns dos maiores vencedores do boom de IA. Empresas especializadas em componentes e infraestrutura para centros de dados ultrapassaram todos os parâmetros. De acordo com um levantamento do mercado europeu, ações como as da sueca Sivers Semiconductors subiram mais de 2 000 % no acumulado do ano. A empresa produz matrizes de laser e motores ópticos que transportam dados como luz dentro dos centros de dados; o salto de preço ocorreu quando ela assinou uma parceria para integrar seus lasers à plataforma de silício fotônico da GlobalFoundries, garantindo acesso a uma cadeia global de clientes. Apesar de as receitas de 2025 terem ficado em torno de 361 milhões de coroas suecas e a empresa ainda operar no vermelho, investidores apostam no pipeline de encomendas, que cresceu 77 % e já supera 530 milhões de dólares.

Outras companhias europeias também se destacam. A francesa Soitec, fabricante de wafers de silício e materiais para fotônica, viu as suas ações saltarem mais de 550 % em 2026, embora o faturamento total tenha caído 34 %. O que sustentou a alta foi o crescimento das receitas do segmento de fotônica para centros de dados, que alcançaram mais de 214 milhões de euros. A austríaca AT&S, fornecedora de substratos que conectam processadores ao resto do sistema, valorizou mais de 360 % ao anunciar que ampliará capacidades de substratos na China; mesmo tendo suspendido dividendos e financiado sua expansão com dívida, o mercado precifica a antecipação de contratos de longo prazo. A alemã AIXTRON, produtora de equipamentos usados para depositar camadas de semicondutores compostos, acumulou ganho de 235 %, impulsionada pelo otimismo em torno de lasers e óptica, embora a receita do primeiro trimestre de 2026 tenha caído 47 %. O caso da italiana Technoprobe ilustra o mesmo fenômeno: as ações subiram 184 % enquanto a companhia, líder em cartões de prova para teste de chips, teve crescimento modesto de receitas. Em comum, essas empresas participam da cadeia de fornecimento de IA – lasers, substratos, placas de teste, networking e servidores – e ganham valor à medida que grandes clientes elevam os investimentos em infraestrutura.

América: memória e processadores tomam a dianteira
Nos Estados Unidos, a narrativa da “corrida do ouro” também beneficia os fornecedores de ferramentas. As ações da Micron Technology triplicaram em 2025, acumulando alta de 229 % no ano, enquanto os papéis da Nvidia subiram 37 % no mesmo período. A empresa produz memórias de alta largura de banda (HBM) usadas nos aceleradores de IA. Esses módulos armazenam dados ao lado do processador e evitam gargalos, acelerando cálculos. A HBM3E da Micron oferece 50 % mais capacidade e 30 % menos consumo de energia que a concorrência; por isso, tanto Nvidia quanto AMD adotaram a tecnologia em seus chips. Para 2026, a empresa já vendeu toda a produção de sua nova HBM4E, que terá 60 % mais capacidade; o CEO Sanjay Mehrotra prevê que o mercado de HBM alcance 100 bilhões de dólares até 2028. No primeiro trimestre fiscal de 2026, a receita da Micron cresceu 56 %, para 13,6 bilhões de dólares, com o segmento de memória para centros de dados dobrando para 5,3 bilhões; o lucro por ação aumentou 175 %. Esses números explicam por que a Micron aparece no topo do índice PHLX Semiconductor, com uma alta de 987 % em doze meses.

Outra rival que superou a Nvidia foi a AMD. Em 2026, as ações da empresa avançaram quase 97 % enquanto a Nvidia ganhou perto de 20 %. A AMD tornou-se um segundo fornecedor de aceleradores de IA para grandes nuvens, quebrando o monopólio de facto da Nvidia. Suas GPUs Instinct MI300X e os processadores EPYC com 128 núcleos conquistaram contratos com gigantes de tecnologia e prometeram maior concorrência em um mercado restrito.

A aposta nas redes de dados
Se os investidores procuram a próxima história de crescimento, podem olhar além de chips e memórias. A americana Marvell Technology, tradicional fabricante de controladores Ethernet e chips de rede, tornou-se candidata a estrela. Analistas apontam que, enquanto o mercado se concentra nos processadores, a empresa fornece a infraestrutura de interconexão que permite que clusters de IA operem sem gargalos. Ela desenvolve switches de alta velocidade, interfaces de rede e unidades de processamento de dados que descarregam tarefas de encriptação e balanceamento de carga dos processadores. Em 2026, a Marvell recebeu um impulso inesperado: a Nvidia investiu dois bilhões de dólares e anunciou uma parceria para desenvolver switches e DPUs otimizados para suas plataformas de IA. Essa aliança garante pedidos imediatos e posiciona a Marvell para capturar parte dos 720 bilhões de dólares que os hiperescaladores devem investir em capex de IA neste ano. Diferente de rivais com valorizações altíssimas, a empresa ainda tem capitalização mais modesta e múltiplos de lucro menores, o que sugere potencial de valorização.

Um mercado cada vez mais concentrado
A ascensão dessas empresas acontece em meio a uma concentração sem precedentes dos índices de ações. Analistas da Morgan Stanley apontam que os 10 maiores papéis dos Estados Unidos correspondem hoje a um terço do valor do mercado e representam 37,5 % do índice MSCI USA. Essa concentração está vinculada ao tema da inteligência artificial: os índices se tornaram apostas direcionais no sucesso de poucos grupos. Os maiores resultados de 2025 vieram de tecnologias; quase dois terços do aumento de lucros no primeiro trimestre de 2026 será gerado por empresas de tecnologia e comunicações, segundo estimativas da LSEG. Especialistas alertam que os investidores que compram fundos passivos enfrentam uma armadilha: mais de 40 % de cada 100 dólares investidos em um fundo de índice são alocados em dez empresas. Isso cria um ciclo em que as entradas de capital aumentam o peso dessas ações independentemente de fundamentos e torna o mercado vulnerável a correções se as expectativas forem frustradas.

O fenômeno não se limita aos Estados Unidos. Na Coreia do Sul e em Taiwan, Samsung e TSMC respondem por 20 % e 40 % dos respectivos índices, e juntas somam um quinto do MSCI Mercados Emergentes. Em alguns casos, as autoridades estimulam esse nacionalismo corporativo: o governo norte-americano adquiriu 10 % da Intel em agosto, e as ações da empresa triplicaram em seis semanas, levando sua capitalização a mais de 600  bilhões de dólares.

Perspectivas e cautela
Apesar das valorizações extraordinárias, muitos desses papéis ainda operam no vermelho ou negociam a múltiplos baseados em expectativas de crescimento. No caso europeu, várias empresas tiveram quedas de receita ou margens negativas, mas investidores antecipam que o crescimento de centros de dados de IA sustente pedidos futuros. O mesmo vale para empresas como a Marvell, cuja receita ainda é modesta em comparação com os gigantes da indústria. Nos Estados Unidos, o ciclo de memória pode reverter e reduzir a margem de Micron, e a competição pode pressionar os preços de chips. Ainda assim, o desempenho recente mostra que apostar apenas na líder do setor pode significar perder histórias de crescimento exponencial.

Para o investidor, a lição é clara: o boom de IA está criando uma cadeia de valor vasta, que vai de lasers e substratos a servidores e redes. Muitas dessas empresas superaram a Nvidia em valorização não por competirem diretamente com ela, mas por oferecerem a infraestrutura que sustenta a revolução da IA. Ao mesmo tempo, o aumento da concentração nos índices exige prudência, já que ganhos e perdas podem ser amplificados quando poucos nomes dominam o mercado. A diversificação dentro da cadeia de IA e a atenção aos fundamentos tornam-se, portanto, mais importantes do que nunca.