Berliner Boersenzeitung - Milei e a promessa adiada

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Milei e a promessa adiada




Quando Javier Milei venceu a eleição presidencial argentina em 2023, sua proposta monetária parecia inequívoca: o Banco Central seria fechado, o peso deixaria de monopolizar as transações e a economia avançaria para uma concorrência de moedas que, na prática, abriria caminho à dolarização. A imagem da dinamite aplicada à autoridade monetária não era um detalhe retórico. Ela condensava a ruptura prometida por um candidato que atribuía à emissão de dinheiro e ao financiamento do déficit a raiz da inflação crônica argentina.


Em 30 de julho de 2026, porém, Milei anunciou algo muito diferente de uma demolição. O presidente apresentou uma reforma da Carta Orgânica do Banco Central destinada a preservar a instituição, limitar suas funções, aumentar sua independência e tornar mais difícil a remoção de seus dirigentes. O órgão que deveria desaparecer passaria a ter regras mais rígidas, um mandato mais definido e uma estrutura institucional mais protegida contra mudanças políticas.


A contradição é evidente no plano simbólico. Ainda assim, a resposta à pergunta sobre uma promessa quebrada exige separar três dimensões que costumam aparecer misturadas no debate: o conteúdo formal da plataforma eleitoral, a mensagem transmitida ao eleitorado e a execução concreta da política econômica.


Da demolição ao blindamento

Durante a campanha, Milei afirmou repetidas vezes que fechar o Banco Central não era negociável. A dolarização e a eliminação da autoridade monetária tornaram-se os elementos mais reconhecíveis de seu programa, ao lado do corte do gasto público e da redução do tamanho do Estado. Para milhões de eleitores, o compromisso não significava apenas reformar a instituição. Significava retirar definitivamente da política a capacidade de emitir moeda.


A proposta apresentada em 2026 percorre o caminho oposto em termos institucionais. Em vez de preparar formalmente a extinção do Banco Central, o governo pretende fortalecê-lo como guardião do valor da moeda. O projeto estabelece essa missão como objetivo central, proíbe o financiamento monetário do Estado e eleva as exigências para afastar o presidente e os diretores da entidade. Essa mudança é mais do que semântica. Um banco central independente, com mandato restrito e direção protegida, corresponde a um modelo clássico de política monetária. Trata-se justamente do tipo de instituição existente em diversas economias que Milei costumava apresentar como exemplos de estabilidade, mas que não aboliram suas autoridades monetárias. O novo desenho aproxima a Argentina desse padrão, e não de uma economia sem banco central.


O que a plataforma permitia interpretar

A plataforma eleitoral de 2023 oferecia ao governo uma margem de defesa que a retórica de campanha frequentemente ocultava. A eliminação do Banco Central aparecia como parte de uma etapa posterior do programa. Antes disso, o plano previa reformas, saneamento do balanço da instituição, redução de sua influência política e abertura à concorrência de moedas.


Sob essa leitura, a reforma atual poderia ser apresentada como uma fase intermediária. Primeiro seria necessário interromper a emissão destinada ao Tesouro, eliminar passivos problemáticos, reforçar as reservas e ampliar o uso voluntário de outras moedas. Somente depois, quando a utilização do peso se tornasse residual, o Banco Central perderia sua função e poderia ser encerrado.
O problema político é que essa sequência técnica nunca teve a mesma força comunicativa que a promessa de fechar a instituição. A campanha não foi vencida com a mensagem de que o Banco Central seria modernizado e protegido durante um período indefinido. Foi vencida com a ideia de que ele representava um mecanismo irreformável de expropriação inflacionária. Por isso, mesmo que a plataforma admita etapas, a decisão de blindar a entidade produz uma sensação legítima de recuo.


O núcleo da reforma de 2026

A nova Carta Orgânica proposta pelo Executivo está organizada em torno de cinco mudanças centrais. A primeira reduz o mandato do Banco Central à preservação do valor da moeda, retirando objetivos mais amplos ligados ao emprego, ao desenvolvimento e à equidade social.


A segunda proíbe de forma explícita o financiamento direto ou indireto do governo nacional, das províncias e dos municípios. A intenção é impedir adiantamentos ao Tesouro, compras de títulos no mercado primário e outras operações capazes de transformar déficit fiscal em expansão monetária. A terceira busca proteger a direção da entidade contra interferências do poder político. A remoção de seus integrantes exigiria maiorias de dois terços na Câmara dos Deputados e no Senado. O governo argumenta que essa barreira reduziria a possibilidade de substituir autoridades técnicas apenas para flexibilizar a emissão de dinheiro.


A quarta mudança restringe a distribuição de resultados contábeis decorrentes da valorização dos ativos. Ganhos que não representam recursos efetivamente realizados seriam destinados a uma reserva técnica, evitando que lucros meramente nominais sejam transferidos ao Tesouro e convertidos em gasto público.


A quinta elimina mecanismos como as letras intransferíveis entregues pelo Tesouro ao Banco Central. Esses ativos foram utilizados durante anos para obter reservas em troca de títulos sem mercado líquido, deteriorando a qualidade do balanço da autoridade monetária. O pacote anunciado também inclui um chamado grilhete fiscal. A proposta determina que déficits persistentes acionem um mecanismo semelhante à paralisação parcial do governo nos Estados Unidos. Atividades estatais não essenciais seriam interrompidas, novas despesas e contratações seriam congeladas e as principais autoridades políticas deixariam temporariamente de receber salários. Aposentadorias, pensões, benefícios sociais, saúde, segurança e outros serviços essenciais permaneceriam protegidos.


A dolarização perdeu o lugar central

Enquanto o Banco Central ganha uma nova arquitetura, a dolarização deixou de ocupar o centro da agenda imediata. O governo passou a falar preferencialmente em concorrência de moedas e dolarização endógena. Nesse modelo, o dólar não seria imposto por decreto. Sua adoção ocorreria de forma gradual, à medida que empresas e cidadãos escolhessem a moeda mais conveniente para contratos, poupança e pagamentos.


Na prática, porém, o peso continua sendo a unidade predominante da economia, os impostos seguem denominados na moeda nacional e o Banco Central permanece indispensável para administrar o sistema financeiro, as reservas e o regime de bandas cambiais. A Argentina flexibilizou restrições e ampliou a possibilidade de realizar operações em dólares, mas não substituiu seu sistema monetário. Há também um obstáculo material. Uma dolarização segura exige reservas líquidas suficientes para converter a base monetária, sustentar depósitos, administrar a transição bancária e enfrentar eventuais saques. As reservas brutas alcançaram cerca de 47,6 bilhões de dólares no fim de julho de 2026, mas esse número inclui componentes que não estão integralmente disponíveis para uso imediato. Swaps, empréstimos, depósitos e outras obrigações reduzem a margem efetiva de manobra.


O próprio governo reconheceu anteriormente que não havia dólares suficientes para garantir uma conversão bem-sucedida. Essa limitação ajuda a explicar por que o plano original foi substituído por uma estratégia gradual. Também mostra que a promessa eleitoral dependia de condições financeiras muito mais complexas do que sugeria a campanha.


Resultados que mudaram o cálculo político

A decisão de preservar o Banco Central não ocorreu num vazio. A estabilização obtida desde o início do governo alterou os incentivos. A inflação anual, que havia encerrado 2023 em 211,4 por cento, recuou para 33,5 por cento em junho de 2026. No mesmo mês, a alta mensal foi de 1,9 por cento e o acumulado do ano chegou a 16,8 por cento.


Esses números ainda representam uma inflação elevada para padrões internacionais, mas mostram uma mudança profunda em relação ao cenário herdado. O equilíbrio fiscal, a interrupção do financiamento monetário ao Tesouro e a reorganização dos passivos do Banco Central permitiram reduzir a velocidade de aumento dos preços sem executar a dolarização. A atividade econômica também se recuperou depois da forte contração inicial. O produto interno bruto cresceu 4,4 por cento em 2025. No primeiro trimestre de 2026, avançou 2,3 por cento em relação ao mesmo período do ano anterior e 0,7 por cento em comparação com o trimestre precedente.


A pobreza medida nos principais centros urbanos caiu de 52,9 por cento no primeiro semestre de 2024 para 28,2 por cento no segundo semestre de 2025. A melhora é significativa, embora não elimine a fragilidade social. Entre crianças de até 14 anos, a pobreza ainda atingia 41,3 por cento. O ajuste fiscal, a redução de subsídios, a paralisação de obras e a perda inicial de renda deixaram custos que continuam presentes no debate público.


Esses resultados dão ao governo um argumento poderoso. Se a inflação pode ser reduzida com disciplina fiscal e sem eliminar imediatamente o peso, o custo e o risco de uma dolarização abrupta tornam-se menos atraentes. Ao mesmo tempo, o sucesso parcial da estabilização permite a Milei afirmar que está atacando a função que condenava, mesmo sem extinguir a instituição que a exercia.


A fragilidade jurídica do novo modelo

A ambição de blindar o Banco Central enfrenta um limite básico. A Carta Orgânica é uma lei comum. Um governo futuro com maioria parlamentar poderá modificá-la novamente. Exigir dois terços para remover dirigentes pode aumentar a estabilidade das autoridades, mas não transforma o desenho institucional em uma regra constitucional imutável.


Esse ponto é decisivo. A credibilidade de um banco central não nasce apenas do texto legal. Depende de disciplina fiscal duradoura, transparência, reservas suficientes, estatísticas confiáveis e respeito às normas por sucessivos governos. A Argentina já reformou suas instituições monetárias em diferentes momentos e depois alterou as regras diante de novas crises políticas.
A proposta de Milei pode reduzir o risco de financiamento inflacionário, mas não elimina a possibilidade de reversão. Também cria uma tensão democrática: uma direção muito protegida pode ganhar autonomia técnica, porém pode igualmente permanecer no cargo mesmo depois de perder confiança política ou cometer erros graves. O equilíbrio entre independência e prestação de contas será um dos pontos mais sensíveis do debate parlamentar.


Promessa quebrada ou promessa adiada

No sentido literal, a promessa ainda não foi cumprida. O Banco Central continua aberto, o peso permanece em circulação e não existe uma data oficial para a dolarização. Mais do que isso, o governo está investindo capital político para consolidar e proteger a instituição que prometeu eliminar.


No sentido formal, ainda é cedo para afirmar que o compromisso foi abandonado de maneira definitiva. A plataforma previa etapas, o mandato presidencial não terminou e Milei continua apresentando a concorrência de moedas como horizonte. Uma reforma temporária pode, em tese, funcionar como ponte para um sistema no qual o Banco Central se torne desnecessário. A questão é que uma ponte precisa indicar a direção e o ponto de chegada. Até agora, o governo não apresentou um cronograma, critérios verificáveis ou uma sequência legislativa destinada ao fechamento da entidade. O que existe é um plano detalhado para fazê-la funcionar melhor e por mais tempo. Quanto mais sólida se tornar essa nova arquitetura, menos convincente será a ideia de que se trata apenas de uma fase transitória.


A formulação mais precisa, portanto, é que Milei não enterrou formalmente sua maior promessa, mas a adiou, redefiniu e retirou do centro da política econômica. Para seus apoiadores, isso pode representar pragmatismo diante das restrições reais. Para seus críticos, é a confirmação de que a retórica de campanha era incompatível com a responsabilidade de governar.


O julgamento ficará para 2027

A resposta definitiva dependerá do que acontecer até o fim do mandato. Se a concorrência de moedas avançar, se o uso do peso diminuir e se o governo apresentar um caminho concreto para dispensar o Banco Central, a reforma de 2026 poderá ser interpretada como etapa de transição. Se a instituição permanecer fortalecida, administrando o peso e o regime cambial, a promessa terá sido substituída por outra política.


O eleitor não julga apenas resultados econômicos. Também compara o que foi entregue com aquilo que foi prometido. A queda da inflação, a recuperação da atividade e a redução da pobreza podem justificar uma mudança de estratégia, mas não apagam a necessidade de explicá-la com clareza.

Milei chegou ao poder afirmando que o Banco Central não podia ser corrigido. Agora tenta demonstrar que ele pode ser limitado, disciplinado e protegido. Essa é uma mudança importante de diagnóstico. A pergunta já não é apenas se o presidente quebrou uma promessa. É se a transformação dessa promessa em gradualismo foi uma adaptação responsável ou o abandono silencioso da bandeira que o levou à Casa Rosada.