Berliner Boersenzeitung - Ushuaia, cidade argentina do 'fim do mundo', tenta dissociar sua imagem do hantavírus

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Ushuaia, cidade argentina do 'fim do mundo', tenta dissociar sua imagem do hantavírus
Ushuaia, cidade argentina do 'fim do mundo', tenta dissociar sua imagem do hantavírus / foto: Cristian URRUTIA - AFP

Ushuaia, cidade argentina do 'fim do mundo', tenta dissociar sua imagem do hantavírus

Destino turístico emblemático do "fim do mundo", a cidade argentina de Ushuaia busca se livrar do rótulo de "origem" do surto de hantavírus no cruzeiro MV Hondius, que zarpou da localidade em 1º de abril.

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Com temperaturas em torno de 3 ou 4 graus negativos e céu cinzento, seu porto sobre o Canal de Beagle, estreito de águas geladas que liga o Pacífico ao Atlântico, exibe a atividade mínima do inverno.

Há barcos pesqueiros e um ou outro cargueiro, mas nenhum dos mais de 500 cruzeiros que a cada ano levam 150 mil visitantes a esta cidade na província da Terra do Fogo. A temporada terminou há um mês.

Os turistas que a visitam aproveitam as excursões de catamarã às ilhas próximas. Ninguém parece muito preocupado com o que ocorreu no Hondius: "Não parece que aqui tenham percebido, porque está tudo normal, não acontece nada", disse à AFP o turista colombiano Luis Cardona.

Cardona e sua esposa usam máscaras - por prevenção e por causa do frio, dizem - e têm álcool à mão, mas não estão assustados: "Parece que está tudo bem", confirma Cardona.

"Vimos algumas pessoas de máscara, mas muito poucas", conta à AFP Silvina Galarza, uma argentina que visitava Ushuaia vinda do norte do país.

Há dias, autoridades científicas, políticas e turísticas da província reiteram que há probabilidades "praticamente nulas" de que o paciente zero do navio tenha se infectado nesta cidade durante sua estadia de 48 horas antes de embarcar.

- "O enigma do aterro" -

Uma estrada de terra perto de uma zona de praias a cerca de 7 km da cidade leva ao "aterro sanitário" de Ushuaia, um lixão cercado de bosques que atrai aves famintas.

Segundo versões não confirmadas da imprensa, os holandeses - amantes de aves - poderiam ter ido até lá para avistar o carcará-de-garganta-branca (Daptrius albogularis). Nesse local, o casal pode ter estado em contato com transmissores do hantavírus.

"Temos isso apenas como um rumor", disse o diretor de Epidemiologia da província, Juan Petrina. "Os dias também não batem para que a doença pudesse ter sido contraída aqui e, em tão pouco tempo, começasse o início dos sintomas no navio", acrescentou em entrevista coletiva.

Mas, além das explicações, Ushuaia segue sob suspeita. Na segunda-feira (11), a câmara de turismo local expressou seu mal-estar e pediu "à comunidade jornalística local, nacional e internacional que atue com a máxima cautela e transmita apenas informação devidamente verificada e/ou oficial".

As autoridades destacam que a província não registra casos de hantavírus desde que os primeiros contágios entre pessoas foram identificados, em 1996, e o registro se tornou obrigatório.

A cepa no cruzeiro é a Andes, a única transmissível entre humanos, uma variante endêmica nas províncias patagônicas de Chubut, Río Negro e Neuquén e no sul do Chile. Os holandeses viajaram pela Argentina, Chile e Uruguai antes de embarcar.

De toda forma, Petrina disse que pesquisadores visitarão Ushuaia para capturar e analisar roedores, uma atividade que pode ser dificultada se continuar nevando.

- "Um estigma que preocupa" -

Em algumas semanas, quando a neve chegar para ficar, a cidade voltará a ter um pico de visitantes, especialmente esquiadores que se deslocam diariamente até o Cerro Castor, principal centro de inverno, a 26 quilômetros.

"Não é bom, como destino, ficar associado à transmissão de uma doença", disse à AFP Ángel Brisighelli, gerente da empresa turística Rumbo Sur e presidente da Federação de Câmaras de Turismo.

"Além de não existir na Terra do Fogo nenhum antecedente autóctone de hantavírus nem a prevalência do rato que o transmite, o fato é que todo mundo fala do navio que saiu de Ushuaia", acrescenta.

A curto prazo, não houve queda nas reservas após o surto, informou Juan Manuel Pavlov, secretário do Instituto de Turismo (Infuetur).

Enquanto isso, na zona portuária, os turistas vestidos com casacos, gorros e luvas aproveitam a vista do canal.

Cardona e sua mulher passaram do calor do eixo cafeeiro colombiano para uma chuva com vento que faz o rosto doer, mas ele diz que a cidade é "muito bonita". "Não teria problema em voltar".

(Y.Yildiz--BBZ)